História para quando se está longe de casa

Vamos passar mais de um mês fora de casa, a viagem mais longa que já fizemos com as crianças. Durante estes dias, teremos como base uma casa alugada onde todos os móveis, objetos e utensílios não são nossos. Todos estavam muito animados com a aventura mas, logo ao chegarmos na casa nova, minha filha menor, de 6 anos, começou a estranhar tudo. “Mãe, eu não gosto de uma casa com um só andar”. “Mãe, o colchão é muito mole.” “Mãe, eu não vou conseguir ficar longe dos meus brinquedos.”

É natural que as crianças pequenas (e até os adultos) tenham essa sensação de desconforto diante de uma vivência totalmente nova e ainda sem a possibilidade de voltar tão cedo ao seu porto seguro. Em situações como esta – e em muitas outras onde sabemos que o caminho não é racionalizar e encher a criança de argumentações – buscar o caminho das histórias é uma solução quase infalível, pois cria a identificação que os pequenos precisam para compreender o desafio pelo qual estão passando e também para envolver-se no mundo das imagens, lá onde as crianças pequenas vivem e onde as principais mensagens atuam em seus corações e em suas almas.

Para contornar esta situação específica com a minha pequena, parei tudo o que estava fazendo, sentei-a no meu colo e contei uma história que inventei na hora, buscando acalentar seu coraçãozinho. Compartilho aqui esta história que também pode ser muito útil em viagens, mudanças ou qualquer outra situação que exija alguma adaptação difícil para a criança. Encorajo você a usar sua sensibilidade e criar histórias sob medida para a sua criança. Você verá o poder mágico que elas têm e poderá usar esse recurso sempre que precisar.

A Nova Casa do Caracol

Caracol vivia feliz em um agradável jardim florido. Sua casa era segura e quentinha e ali ele tinha tudo o que precisava. Caracol nem pensava em sair dali, mas admirava as joaninhas coloridas que ali pousavam, contando sobre suas viagens para lugares belos e distantes.

Foi então que, num dia de sol, uma joaninha amarelinha veio falar com ele, contando sobre todas as lindas cores que tinha visto em seu último voo até a praia. Caracol ficou impressionado e com muita vontade de conhecer estas lindas cores que Joaninha havia visto (aliás, Caracol desconfiava que era justamente por isso que as joaninhas têm tantas cores diferentes). Joaninha então, vendo a curiosidade do amigo, convidou Caracol para viajar com ela. “Mas para isso”, ela comunicou, “você terá que deixar aqui no jardim a sua casa, pois não conseguirei carregá-lo para voar comigo levando uma casa tão grande.”

Caracol ficou espantando só de pensar em deixar sua casa mas, tão empolgado que estava, que aceitou o convite da joaninha e partiu com ela, equilibrando-se em sua casca amarela e entre suas velozes asinhas. E como era maravilhosa a sensação de voar! Tudo parecia ainda mais vivo, mais brilhante, mais colorido!

Pousaram então na restinga, à beira de uma praia de areias brancas e repleta de conchinhas cintilantes. Joaninha mostrou a Caracol todas as maravilhas daquele novo lugar e brincaram e passearam durante toda a tarde. No entanto, quando o sol começou a se despedir, Caracol começou a sentir falta do seu jardim e, principalmente, da sua confortável casinha. Como ele conseguiria dormir sem a proteção da sua casa? Caracol pensou em ir embora, mas sabia que não seria possível pois Joaninha ainda não poderia levá-lo. Ficou chateado, bravo, e tudo o que antes era tão bonito parecia agora desalentador. Caracol acomodou-se ao lado de um capim gelado e úmido e sentiu o choro chegando, quase incontrolável. “Como teve coragem de abandonar sua confortável casinha?”, ele pensava consigo próprio e, quanto mais pensava nisso, mais tristeza sentia.

Então Caracol rastejou até a areia branca, sem saber o que fazer. E logo ali, ao lado da restinga, ele viu algo brilhando sob a luz do luar. Ele não sabia muito bem o que era, mas parecia algo muito familiar. Caracol então decidiu aproximar-se e viu uma brilhante concha que se enrolava na areia. É verdade que ela não se enrolava da mesma forma que a sua casinha, mas parecia ampla e quentinha o suficiente para um pequeno caracol passar a noite. Vendo que a concha estava vazia, ele resolveu entrar um pouco e, Oh!, ela ainda era macia e confortável! Caracol então percebeu que poderia passar a noite naquela nova casa que, apesar de ser diferente da sua, era um abrigo perfeito para uma noite na praia. Mas o melhor de tudo foi o que ele descobriu ao se aconchegar para descansar: sua nova casa cantava para ele dormir, um canto suave e ritmado, como as ondas do mar.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: