Educação Domiciliar: Desconstruindo Mitos

Frequentemente recebo abordagens de mães e pais que chegam até mim por indicação de amigos ou conhecidos. O começo da conversa é sempre o mesmo: “estamos interessados na educação domiciliar, está nos parecendo uma boa opção para as nossas crianças, mas temos muitas dúvidas e receios.” E aí surgem uma série de perguntas que, invariavelmente, giram em torno dos mesmos temas.

Tenho muita empatia por estas abordagens pois eu mesma já estive na situação de um dia decidir tirar minhas filhas da escola para educá-las em casa e sei que ficamos realmente assombrados por tantos fantasmas sobre o tema e pelos medos que eles nos causam.

Mas hoje, depois de alguns anos trilhando este caminho e bastante confiante em ter tomado a decisão certa, estes temas já não me parecem mais monstros assustadores e consigo enxergá-los como o que são de verdade: mitos que precisam ser esclarecidos para que mais famílias possam ter acesso a um modelo de educação que julgam ser o mais adequado para as suas crianças.

Vou então buscar esclarecer alguns destes mitos com base na minha própria experiência de educação domiciliar e na de muitas famílias que já acompanhei.

Mito #1: Educação em casa é o mesmo que escola em casa

Nada disso! Geralmente, quando educamos uma criança fora da escola, parte da nossa motivação é justamente criar um modelo diferente e mais satisfatório para todos. E quando de fato começamos a colocar este modelo em prática, percebemos que a educação domiciliar está muito menos baseada em conteúdos ou materiais específicos e muito mais em deixar a criança engajada no próprio aprendizado.

Afinal, estamos sustentanto esta possibilidade da educação domiciliar justamente para proporcionar uma aprendizagem mais empolgante, mais participativa e, consequentemente, mais sólida e – por que não? – mais feliz!

Como pais educadores, nós certamente precisamos estar informados e bem preparados para acompanhar nossos filhos nesta jornada, mas também precisamos ser flexíveis e estar com o coração e a mente abertos para encarar o aprendizado de uma forma mais ampla.

Ampliando nossa visão sobre a educação, começamos a perceber que as crianças estão realmente aprendendo o tempo todo e que o aprendizado é dinâmico, fluído e muito mais empolgante quando não está confinado a um único local durante um único período, como o que acontece na escola.

Com um pouco de prática, vamos encontrando nossa própria forma de proporcionar a educação que as nossas crianças precisam e desenvolvendo habilidades para criar o formato ideal (e geralmente único) que melhor atende a nossa família.

Mito #2: Os pais precisam ser pedagogos ou especialistas

Certamente não. A educação domiciliar demanda que estejamos preparados e presentes, mas também que sejamos flexíveis e intuitivos. Afinal, você é o maior especialista no seu filho e, cultivando sua sensibilidade e adquirindo uma certa desenvoltura nos temas da educação, saberá exatamente quando, como e onde oferecer o que ele precisa.

Quando conseguimos um equilíbrio entre o preparo e a flexibilidade, com uma boa dose de conexão com a criança, nossas aulas em casa costumam ser memoráveis, despertam o interesse, trazem alegria e fluem tranquilamente.

Além disso, a educação domiciliar nos estimula a estar sempre buscando, lendo, pesquisando. Quando nos tornamos pais educadores, nasce uma motivação enorme pelo nosso próprio desenvolvimento. Mas isto não precisa acontecer dentro de um contexto formal, como uma universidade ou cursos específicos. Esta busca está acessível a qualquer um que se disponha e persegui-la e torna-se uma parte muito bonita do processo pois cria um cultivo do amor pelo aprender.

E as crianças também aprendem vendo que nós mesmos estamos aprendendo o tempo todo, independente da idade, do lugar ou da ocasião.

Mito #3: Crianças educadas em casa não têm oportunidade de socialização

As crianças precisam e gostam de aprender e brincar com outras crianças. Mas isto não precisa acontecer todos os dias e, muito menos, com dezenas ou centenas de crianças ao mesmo tempo. A socialização na educação domiciliar também demanda que os pais estejam ativos para promover encontros e oportunidades de interação para as crianças mas, definitivamente, o modelo oferecido pela escola não é o único e talvez nem seja o melhor para muitas crianças.

Imagine que uma criança educada em casa tem a oportunidade de socializar com uma diversidade enorme de crianças e adultos dentro do contexto da “vida real”, e não somente com crianças da mesma idade, da mesma classe social ou do mesmo bairro. Elas tem muita disponibilidade para encontros com amigos diversos, de diferentes lugares e idades. E também têm muitas oportunidades de participar ativamente da vida em comunidade, frequentando lugares públicos, eventos, museus, supermercados, bancos, parques, como parte do seu processo de educação e socialização.

Colocando-se ativas, vemos famílias educadoras criarem encontros semanais de brincadeira livre, grupos de artes e de ciências, aulas coletivas e festivais que reúnem crianças e adultos com frequência e ajudam a formar laços duradouros, para além do horário das aulas.

Mito #4: Os pais (ou um deles) precisarão estar dedicados em tempo integral

É verdade que a educação domiciliar demanda uma boa dose de dedicação e compromisso por parte de, ao menos, um dos pais. No entanto, isto não significa que todos os nossos dias serão tomados exclusivamente por este tema.

Diferente do que acontece quando as crianças saem para ir à escola e a casa fica vazia a maior parte do tempo, na educação domiciliar, ela torna-se o local principal de quase todas as atividades do dia. Tudo pode parecer meio confuso e atribulado no início mas, em pouco tempo, a casa será um lugar de convívio onde todos estarão à vontade para desenvolver suas atividades com autonomia e respeito pelas necessidades de todos. E ainda existe o bônus de fortalecer os laços familiares!

A chave aqui é estabelecer um ritmo consistente, que agregue de uma forma fluída todas as demandas da família. Idealmente, este ritmo inclui todos, crianças e adultos, e abre o espaço necessário para as atividades e prioridades de cada membro da família.

Manter uma estratégia simples e factível também é importante para o sucesso do seu projeto de educação domiciliar, pois traz foco e nos ajuda a conservar nossa atenção ao que é essencial, sem planos mirabolantes e sem espaço para o desperdício do nosso tempo e energia.

Além disso, não se esqueça que pais educadores são facilitadores do aprendizado, não super heróis. Dependendo da sua proposta, você sempre poderá contar com professores, tutores ou mesmo parentes ou amigos que possam contribuir para a educação da sua criança com alguns temas para os quais você não tenha disponibilidade. Novamente, flexibilidade e simplicidade são essenciais.

Mito #5: Crianças educadas em casa não terão a mesma qualidade de educação

Se você está pesquisando sobre a educação domiciliar, de alguma forma já percebeu que a escola não é um modelo infalível. A ideia aqui é perceber que, para termos um resultado excelente na educação de um modo geral, é preciso compreendermos que não há uma fórmula. Existem, sim, contextos diferentes, crianças diferentes, distintas formas de aprendizagem e necessidades variadas.

A educação domiciliar não vem para ser unanimidade. É com uma diversidade de abordagens e possibilidades que poderemos garantir que todas as crianças sejam bem atendidas em seus processos de desenvolvimento.

Sendo assim, as crianças educadas em casa poderão de fato ter outra qualidade de educação. Nem melhor, nem pior que as educadas na escola. Apenas diferente e, provavelmente, mais apropriada às suas necessidades e ao seu contexto familiar e social.

Pais engajados e atentos conseguirão oferecer a seus filhos uma experiência educacional rica, de qualidade e repleta de entusiasmo, o que desenvolverá um amor pela aprendizagem constante.

Espero mesmo que este texto ajude a desconstruir ideias distorcidas sobre a educação domiciliar. De qualquer forma, procure pesquisar mais sobre o assunto, conversar com famílias que praticam a educação domiciliar e, principalmente, visualize exatamente como seria esta proposta dentro da sua família. Livre-se das informações rasas e dos preconceitos e dê o primeiro passo! Só assim você conseguirá ter uma visão mais clara do caminho e poderá, de fato, aproveitá-lo, assim como deve ser.

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