Desescolarização

Quando decidimos pela educação domiciliar, depois que nossas duas filhas maiores tinham frequentado a escola por um tempo, não optamos por seguir uma pedagogia ou método específicos. Nem mesmo organizamos um formato escolar logo no início. Ao contrário, percebemos logo que precisávamos antes passar por um processo de desescolarização.

Não creio que exista uma definição oficial para este termo, desescolarização, mas certamente ele vai além de educar fora da escola. Pela minha vivência, é algo como “tirar a escola de dentro de si”, desconstruir crenças sobre os processos de aprendizagem, quebrar as regras que embalam a educação e não repetir os padrões impostos pelas instituições. Enfim, uma experiência bastante impactante para a quase totalidade de mães e pais da minha geração que, certamente, passaram anos e anos das suas vidas sendo moldados pelo ambiente escolar.

Enfim, quando nos deparamos com a realidade desta escolha, a primeira grande tarefa foi desconstruir a crença de que “só se aprende na escola”. Tivemos que nos abrir para a ideia de que estamos o tempo todo aprendendo. Sempre e para sempre. E este trabalho de desconstrução valia tanto para crianças quanto para adultos. Mesmo nossas filhas, que frequentaram a escola não por muito tempo, já mostravam um comportamento de aceitar apenas a aprendizagem dirigida. No início, observamos um baixo ímpeto de curiosidade, de clareza dos seus impulsos próprios de aprendizagem, pouca autonomia para o aprender. Tivemos todos que reconstruir justamente esta autonomia, nos reapropriarmos desta capacidade que nasce e se desenvolve com todo o ser humano.

Levamos alguns meses buscando entender que o conhecimento é algo que podemos desenvolver a partir de nós mesmos e da nossa busca curiosa em direção a algo do nosso interesse. Não precisamos ficar esperando que outros nos digam o que devemos aprender, quando e como!

A partir disso, foi necessário investir num processo de autoconhecimento. Muitas vezes eu penso que este é o verdadeiro sentido da educação. As crianças finalmente tinham tempo e espaço para explorar, para construir suas ferramentas de aprendizagem e para construir um ritmo próprio.

Por fim, foi um tempo precioso de nos reencontrarmos uns com os outros. Mesmo sendo pais atentos e participativos, é difícil sabermos exatamente em que estágio as crianças se encontram na sua “vida escolar”, quais são as necessidades de melhorias e as abordagens mais adequadas para cada criança. Para mim, foi um tempo de re-conhecer os meus filhos e de poder elaborar, à partir da observação atenta e respeitosa, precisamente o que eles precisavam.

Depois de toda essa rica vivência (que levou quase 1 ano!), chegou o tempo em que todos sentimos necessidade de dar uma forma para tudo isso. Precisávamos de um ritmo para que tudo fluísse de forma mais harmônica. Naturalmente, fomos nos encaminhando novamente para a Pedagogia Waldorf e criando o momento e o ambiente específicos para sua aplicação. A Pedagogia Waldorf supre, sem dúvida, aquela partezinha que sente a necessidade de formalizar a aprendizagem de alguma maneira. Contudo, nada mais tira de dentro de nós a liberdade, autonomia e a certeza de estamos aprendendo e ensinando o tempo todo e em qualquer lugar.

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